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O que o Brasil levou ao Vale do Silício?

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O que o Brasil levou ao Vale do Silício?

* Por Maité Lourenço

Quero começar este artigo agradecendo ao portal Startupi pelo convite e homenageando a Sara Silva Raimundo, cofundadora da Unicainstancia – uma legaltech que agiliza processos de contas de consumo no Brasil. Sara era brilhante, determinada e será nossa inspiração para sempre.

O Brasil no Vale do Silício desta vez aconteceu através da conferência Brazil at Sillicon Valley, liderado por Emilio Umeoka. Foi um grande evento que buscou aproximar estudantes, startups e stockholders do ecossistema do Brasil e do mundo.

Essa edição foi a primeira que teve mais pessoas negras participando em relação às versões passadas, conforme relatos. Fruto de um trabalho feito pela instituição, mas realizado a partir da provocação de João Carlos Teixeira e Gabriel Bayomi Tinoco Kalejaiye.

É fato que estes locais são grandes oportunidades para se fazer conexões. Networking é uma das principais ferramentas para fazer um negócio ser conhecido, criar contato com possíveis clientes, suporte, investimento e, principalmente, se mostrar relevante e demonstrar seu impacto.

No estudo que a BlackRocks fez com a Bain & Company em 2021, cerca de 80% dos stockholders do ecossistema de startups afirmam que atuam na seleção de empresas através de indicação. Estes negócios chegam a pular etapas do processo de seleção, fazendo com que tenham maior e mais rápido acesso ao capital.

Acredita-se, ainda, que o fato de pessoas negras e mulheres brancas estarem presentes em eventos já é uma forma de constituição de inclusão e mudanças, no entanto, o que se percebe é que estes grupos são conduzidos a permanecerem juntos.

Durante o Brazil at Sillicon Valley, duas ações foram realizadas neste sentido, sendo somente essas iniciativas propositivas para o engajamento destes grupos durante todos os três dias. A primeira foi a conexão entre mulheres e a segunda foi uma atividade fechada com apenas mulheres negras, que tiveram suas passagens e ingressos patrocinados pela organização do evento.

Eu participei deste segundo encontro. Tivemos a oportunidade de ouvir e trocar experiências com a incrível Profª Drª Eliane Cavalleiro. Ela é docente em Stanford e tem um currículo recheado com o compromisso com a educação e a população negra. Foi uma das responsáveis pela implementação da lei 10.639 (estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”,) e explanou sobre como o movimento negro é crucial para produzir ações e as transformar em leis, políticas públicas e privadas para que tornem mecanismos para popularizar e exigir das lideranças as mudanças necessárias.

Foi um encontro potente que desencadeou várias sugestões e apontamentos para melhorar a conferência. Infelizmente, apontar propostas e ideias nem sempre é bem recebido. Então, este momento também tirou o protagonismo da liderança do evento e escancarou os privilégios que tornam estes eventos não inclusivos e é uma porta aberta para comportamentos como: alteração de voz, atribuição de culpabilização, tentativa de silenciamento e individualização de quem estava apontado.

Deixarei aqui os pontos que foram levantados como forma de conscientizar mais pessoas e instituições sobre o que realmente pode ser a promoção de ambientes mais diversos e inclusivos:

1 – O processo de inclusão vai além de convidar ou permitir que pessoas de grupos minorizados participem de algo que já está estruturado e que detém uma dinâmica que fortalece a manutenção de espaços exclusivos;

2 – É necessário um processo de integração entre todos que estão participando. Essa ação não acontecerá naturalmente, principalmente se os participantes de grupos minorizados forem separados dos demais, delegando a eles a gestão destas conexões;

3 – Já é sabido que ambientes diversos possuem mais oportunidades de ganhos, sejam eles de trocas culturais, sejam eles financeiros. A intencionalidade precisa ser uma ação construída transversal a todas as atividades que serão realizadas, se faz necessário ter proporcionalidade em todas as esferas do evento;

4 – É preciso uma busca constante por letramento racial das lideranças, em que pessoas não negras se comprometam a terem respeito e, principalmente, entendam que serão confrontadas em seus lugares de tomada de decisão. Ainda são homens não negros que ocupam cadeiras de gestão das grandes instituições e se estes não estiveram abertos a reconhecerem seus privilégios, definitivamente, a diversidade se limitará a uma foto nas redes sociais.

* Maité Lourenço é fundadora da BlackRocks Startups e General Partner na YA Ventures. É Conselheira Consultiva da Conservation International e uma das integrantes do programa Liderança com Impacto, representando o ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) do Pacto Global da ONU.


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O post O que o Brasil levou ao Vale do Silício? aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Convidado Especial



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