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Formação de novos talentos em cibersegurança passa urgentemente pelo incentivo à prática

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Formação de novos talentos em cibersegurança passa urgentemente pelo incentivo à prática

*Por Caio Telles

Me lembro claramente do som estridente do modem discado conectando-se à internet. Naquela época, a web era um território quase selvagem, um lugar de exploração e descoberta. Hoje, essa lembrança parece pertencer a outra vida. A internet não é mais um lugar que “visitamos”, é o alicerce sobre o qual construímos empresas, governos e até mesmo as nossas vidas. Essa digitalização acelerada é, sem dúvida, uma das maiores conquistas do nosso tempo. Mas ela veio com um preço: construímos um arranha-céu digital sobre uma fundação que ainda não terminamos de proteger.

O Brasil vive essa realidade de forma intensa. Segundo projeções da IDC, os investimentos em tecnologia devem crescer mais de 20% ao ano. Ao mesmo tempo, um fantasma assombra a evolução: um déficit de cerca de 200 mil profissionais de cibersegurança no país, parte de um abismo global de mais de 3 milhões de vagas abertas, conforme levantamento do ISC² Cybersecurity Workforce Study. Não se trata de uma simples falta de mão de obra; é uma vulnerabilidade estrutural. Cada vaga não preenchida é uma porta destrancada em nossa infraestrutura digital.

O que está em jogo quando ignoramos tal alerta? Muito mais do que dados. Está em jogo a continuidade dos negócios, a reputação de marcas construídas por décadas e, em última instância, a confiança do público. Uma única falha de segurança explorada por um atacante pode paralisar um hospital, vazar informações de milhões de cidadãos ou gerar prejuízos financeiros que afundam uma companhia. Sem profissionais qualificados para defender as trincheiras digitais, a sensação é de que estamos sempre um passo atrás, reagindo a desastres em vez de preveni-los.

O problema é que o modelo tradicional de formação não acompanha a velocidade do campo de batalha. As universidades e cursos técnicos pecam por se apegarem a uma teoria que, embora fundamental, envelhece rapidamente. O currículo acadêmico luta para se atualizar na mesma velocidade com que novas ameaças surgem. É como tentar ensinar um piloto de caça a voar apenas com o manual, sem jamais deixá-lo entrar em um simulador. Ele pode conhecer cada botão do painel, mas não saberá reagir sob pressão, quando um ataque real acontece em frações de segundo.

A verdadeira virada de chave está na prática. O conhecimento em cibersegurança não é desenvolvido apenas na sala de aula. Iniciativas que simulam o mundo real são essenciais. Programas de recompensa por vulnerabilidades, onde empresas convidam especialistas para testar suas defesas de forma ética e controlada, são um exemplo poderoso. Nesses ambientes, um jovem talento pode aplicar seu conhecimento teórico para se aprimorar, receber feedback técnico e aprender a pensar como um adversário.

Tal abordagem transforma a dinâmica de aprendizado. Um pesquisador que encontra uma falha em um sistema real aprende uma lição que nenhum livro poderia ensinar. Ele entende o impacto, a lógica por trás da exploração e, o mais importante, como corrigi-la. Competições como os hackathons e os desafios de Capture The Flag (CTF) cumprem um papel semelhante, colocando os profissionais para trabalhar em equipe, sob pressão e contra o relógio, desenvolvendo habilidades técnicas, pensamento crítico, resiliência e colaboração.

Para que esse modelo prospere, precisamos superar um preconceito antigo. A figura do “hacker” ainda é associada a atividades criminosas, quando, na verdade, a comunidade de especialistas em segurança é nossa maior aliada. Precisamos mudar a percepção e enxergar esses pesquisadores como médicos que apontam as fragilidades do nosso sistema imunológico antes que uma doença grave se instale. A transparência e a colaboração entre empresas e os profissionais são a base de uma defesa mais robusta.

Além disso, é fundamental tornar a carreira mais atrativa e acessível. Cibersegurança não pode ser um clube fechado. Precisamos de programas de mentoria, desafios práticos abertos e mais histórias de sucesso que possam mostrar a jovens de todos os contextos, inclusive de periferias, que esta é uma área com enorme demanda e um caminho real para transformar suas vidas. Quando um jovem percebe que pode aprender, praticar e ser recompensado pelo seu mérito, o segmento pode atraí-los mais.

A verdade é que o Brasil possui um imenso potencial de talentos e não pode se dar ao luxo de esperar que isso melhore sem nenhum tipo de esforço. É preciso que o país invista na formação prática de uma forma mais maciça, até porque essa será a apólice de seguro para o futuro que estamos construindo. Chegou a hora de abrir as portas do “simulador de voo” e preparar nossos pilotos para os desafios do mundo real.

*Caio Telles é cofundador da BugHunt, empresa de cibersegurança referência em Bug Bounty, programa de recompensa por identificação de falhas. É formado em Engenharia de Computação e atua na área de segurança há mais de 15 anos, com foco em segmentos como segurança ofensiva, defensiva, conscientização, GRC, entre outros.


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