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A nova guerra fria tecnológica

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A nova guerra fria tecnológica

* Por Lorenzo Castanho e João Alfredo Lopes Nyegray

Durante a Guerra Fria, a corrida espacial simbolizou mais do que avanços científicos: era a materialização da supremacia entre duas potências rivais, entre os Estados Unidos e a União Soviética. No século XXI, esse papel estratégico é desempenhado pela tecnologia. Chips, redes, inteligência artificial e dados deixaram de ser meros instrumentos de inovação para se tornarem armas silenciosas em uma disputa global por influência e poder.

Nesse contexto, o comércio internacional não é mais apenas um espaço de trocas econômicas, mas um campo de confrontos geopolíticos no qual grandes empresas de tecnologia, como TSMC, Nvidia, Huawei ou ByteDance, desempenham papel central, muitas vezes influenciando diretamente políticas nacionais e estratégias globais.

Atualmente, o embate entre Estados Unidos e China ilustra de maneira clara essa transformação. A dependência global de semicondutores, a expansão das redes digitais e o valor econômico dos dados fizeram da tecnologia um recurso estratégico comparável ao petróleo no século XX. A guerra comercial iniciada de forma mais explícita durante o atual governo Donald Trump, com o chamado tarifaço, é um marco decisivo dessa nova era.

Sob o argumento de proteger a indústria norte-americana, Washington elevou tarifas sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses. Na prática, a medida produziu efeitos globais: encareceu insumos, aumentou custos para empresas e consumidores nos próprios Estados Unidos, provocou incertezas para investidores e desencadeou uma onda de tensões diplomáticas.

A disputa durante a “guerra fria”

Um caso simbólico desse cenário é o da instalação de uma fábrica da taiwanesa TSMC no Arizona. Embora Trump tenha tentado associar a decisão da empresa às tarifas contra a China, o investimento já vinha sendo discutido antes da intensificação do conflito comercial e foi impulsionado por razões estratégicas mais amplas. Entre elas estavam a necessidade de diversificar geograficamente a produção e a pressão crescente dos Estados Unidos para garantir segurança no fornecimento de semicondutores, insumo crítico para setores como defesa, telecomunicações e inteligência artificial.

A vulnerabilidade norte-americana em relação a Taiwan, vista por Pequim como parte de seu território, expõe o risco de que um eventual conflito no Estreito de Taiwan comprometa cadeias globais de suprimento. Assim, atrair empresas de ponta para o território americano ou de aliados confiáveis tornou-se parte de uma estratégia de contenção.

Nesse contexto, a guerra comercial ganhou novos contornos e se transformou em uma verdadeira disputa tecnológica. Washington não apenas manteve tarifas sobre produtos chineses, mas avançou em medidas de controle tecnológico: bloqueou o acesso chinês a semicondutores avançados, impôs sanções a empresas como Huawei, restringiu o envio de equipamentos de litografia pela Holanda e pelo Japão e direcionou bilhões de dólares para fortalecer sua indústria doméstica por meio do CHIPS and Science Act. A ofensiva mais recente incluiu tarifas de até 100% sobre veículos elétricos chineses, novos impostos sobre baterias e painéis solares, além de pressões diplomáticas sobre aliados europeus para limitar a penetração de empresas chinesas em setores estratégicos.

A resposta chinesa também foi firme. Pequim impôs tarifas sobre automóveis e peças norte-americanas, restringiu a exportação de minerais críticos – como gálio e grafite, essenciais para a produção de tecnologias avançadas -, e acelerou sua própria política de autonomia tecnológica, investindo em pesquisa, no fortalecimento de empresas estatais e na internacionalização de sua infraestrutura digital por meio da chamada “Rota da Seda Digital”. O lançamento de chips de 7 nanômetros pela SMIC, mesmo sob sanções, demonstrou a resiliência e a determinação chinesa em não depender de fornecedores ocidentais.

Esse ciclo de tarifas, sanções e contramedidas mostra que a disputa deixou de ser apenas comercial e passou a girar em torno do controle da infraestrutura tecnológica do futuro. Se, no século XX, o poder foi medido por tanques e ogivas nucleares, no século XXI ele será medido por quem controla dados, semicondutores e inteligência artificial.

A ofensiva tarifária de Trump, que começou como uma tentativa de renegociar a posição dos Estados Unidos no comércio global, acabou abrindo caminho para uma confrontação muito mais ampla, estrutural e de longo prazo entre as duas maiores economias do mundo. O que se iniciou como uma guerra de tarifas se transformou, em poucos anos, em uma nova guerra fria tecnológica, cujas consequências já se fazem sentir em cadeias produtivas fragmentadas, em alianças redesenhadas e em um ambiente internacional cada vez mais marcado pela rivalidade sistêmica entre Washington e Pequim.

Diante desse cenário, é importante o Brasil assumir uma postura estratégica e pragmática. O país foi diretamente impactado pelo tarifaço de Trump – sobretudo no agronegócio e em setores industriais que dependem de cadeias globais de suprimentos -, e não pode ignorar que a rivalidade tecnológica entre EUA e China tende a se aprofundar. Ao mesmo tempo, o Brasil detém uma das maiores reservas de terras raras do mundo, aproximadamente um quarto de todo o planeta, recurso que se tornou ativo geopolítico de primeira ordem na corrida tecnológica.

Mais do que apenas exportar commodities, a estratégia brasileira deveria concentrar-se em agregar valor às cadeias produtivas, investir em pesquisa aplicada e em parcerias tecnológicas que permitam transformar esse potencial mineral em vantagem industrial, sem esquecer da proteção ambiental. Isso exige diplomacia equilibrada entre Washington e Pequim, com ênfase em multilateralismo e autonomia estratégica, de forma a evitar o alinhamento automático a um dos polos. Ao posicionar-se como fornecedor confiável e inovador, o Brasil pode não apenas reduzir sua vulnerabilidade às disputas comerciais, mas também projetar-se como um ator relevante na definição das regras do jogo tecnológico global.

* Lorenzo Castanho é estudante do curso de Negócios Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). João Alfredo Lopes Nyegray é mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia


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