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O novo ciclo do Corporate Venture Capital já começou

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O novo ciclo do Corporate Venture Capital já começou

* Por Thiago Iglesias

O ecossistema de inovação atravessa uma mudança estrutural. Se no ciclo anterior o capital abundante favorecia crescimento acelerado, o momento atual é marcado por menor volume de investimentos e maior rigor na alocação. No Brasil, esse movimento reposiciona o Corporate Venture Capital (CVC) como instrumento estratégico, e não mais experimental, dentro das grandes corporações.

Dados do estudo “Ecossistema de Inovação Aberta & CVC no Brasil”, da Sling Hub em parceria com a ABCVC, ilustram essa transição. Em 2025, o volume total investido em startups caiu cerca de 13%, para aproximadamente US$ 4,5 bilhões. Ainda assim, o capital corporativo mostrou resiliência, respondendo por cerca de 46% desse total. Ao mesmo tempo, houve redução no número de rodadas e aumento nos tickets médios, indicando uma preferência clara por aportes mais estruturados e alinhados a estratégias de longo prazo.

Essa seletividade impõe um filtro mais rigoroso às startups, especialmente em estágio inicial. Mas não configura um risco sistêmico ao ecossistema. O que emerge é uma mudança de lógica: menos capital abundante e mais capital intencional. Em paralelo, ganharam relevância mecanismos alternativos, como dívida estruturada, revenue-based financing e maior integração entre CVCs, fundos independentes e aceleradoras.

Na prática, o capital não desapareceu. Na verdade, ele se concentrou. Startups com fundamentos sólidos, proposta de valor clara e capacidade de execução passaram a capturar a maior parte dos recursos. Nesse contexto, o papel do CVC se amplia: além do investimento, passa a conectar startups a ativos corporativos, como base de clientes, infraestrutura, conhecimento regulatório e capacidade de escala, aumentando, assim, a resiliência em ciclos mais restritivos.

Com a evolução dos programas de inovação aberta, o diferencial competitivo do CVC também mudou. Hoje, não se trata apenas de investir, mas de gerar valor estratégico tangível, acelerar provas de conceito, facilitar acesso ao mercado e reduzir barreiras operacionais e regulatórias. Os CVCs mais relevantes são aqueles capazes de transformar capital em execução.

Esse movimento é acompanhado por uma forte verticalização das teses. CVCs brasileiros migraram de uma abordagem generalista para investimentos diretamente conectados às suas cadeias de valor. Trata-se menos de diversificação e mais de eficiência estratégica. Em 2025, os dez maiores deals concentraram cerca de 51% do volume investido, reforçando a disciplina e a concentração de capital em teses mais robustas, segundo levantamento da Sling Hub e ABCVC.

Mesmo com maior seletividade, algumas verticais seguem atraindo capital relevante, especialmente aquelas ligadas à eficiência operacional e à infraestrutura crítica. Pagamentos, serviços financeiros B2B, identidade digital, antifraude, cibersegurança e regtechs continuam no centro das estratégias. Ao mesmo tempo, aplicações de inteligência artificial voltadas a crédito, risco e eficiência operacional se consolidam como prioridade.

Além dessas frentes, o foco em IA e dados permanece absoluto, mas agora condicionado a retorno claro e escala comprovável. Setores como logtech e insurtech seguem captando rodadas significativas, como Vammo (US$ 45 milhões) e Azos (US$ 30,5 milhões), evidenciando que ainda há espaço para teses capazes de resolver ineficiências estruturais. Em paralelo, soluções de sustentabilidade ganham tração. Cleantechs entram de forma definitiva no radar dos CVCs, impulsionadas por compromissos corporativos globais de descarbonização.

Olhando à frente, a perspectiva é de retomada gradual, sustentada por uma nova geração de veículos mais especializados. Iniciativas como Itaú Ventures (R$ 500 milhões) e GB Ventures, do Grupo Boticário (R$ 100 milhões), já nascem com teses claras e governança estruturada, sinalizando um novo patamar de maturidade.

O fator crítico passa a ser a ambidestria organizacional, classificada como capacidade de equilibrar eficiência operacional de curto prazo com apostas em tecnologias disruptivas. O CVC deixa de atuar como um satélite de inovação para se tornar um mecanismo central de renovação estratégica e reciclagem de capital dentro das corporações.

Nos próximos anos, o sucesso do Corporate Venture Capital será medido menos pelo volume investido e mais pela capacidade de execução integrada. O CVC, além de financiar a inovação, se consolida como uma competência organizacional permanente, responsável por conectar estratégia, tecnologia e crescimento. Seu futuro no Brasil não está apenas em investir melhor, mas em integrar a inovação ao core do negócio de forma disciplinada, escalável e, sobretudo, orientada à geração consistente de valor.

* Thiago Iglesias é Head do Torq, hub de inovação da Evertec

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