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O gargalo na engenharia que ameaça a próxima geração de startups brasileiras

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O gargalo na engenharia que ameaça a próxima geração de startups brasileiras

O ecossistema de startups brasileiro tem motivos de sobra para comemorar. O volume de investimentos em venture capital cresce, novos unicórnios surgem e o país se consolida como um dos polos mais dinâmicos de inovação da América Latina. No entanto, por trás dos números animadores, um gargalo silencioso ameaça justamente as startups com maior potencial de impacto transformador: aquelas que nascem da ciência, da engenharia e da tecnologia de base profunda.

O dado é preocupante. O Brasil enfrenta um déficit estimado de 75 mil engenheiros, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ao mesmo tempo, o número de ingressantes nos cursos de Engenharia caiu 23% entre 2014 e 2023, de acordo com o Ministério da Educação. Mais grave: dos 302 mil vagas anuais ofertadas, apenas 120 mil estão ocupadas.

Para as startups, a situação é ainda mais crítica. Pesquisa do Google for Startups em parceria com a Abstartups revelou que 92% das startups brasileiras acreditam que faltam profissionais de tecnologia no país. Quando o recorte se volta para engenheiros seniores e hiperespecializados, o percentual sobe para 84% — ou seja, a maioria das startups simplesmente não encontra no mercado os profissionais mais experientes de que precisa para escalar.

O impacto direto no bolso do empreendedor

Para as startups, a escassez de engenheiros se traduz em números concretos e dolorosos. Estudo do Google for Startups aponta que a competição por talentos qualificados com grandes empresas nacionais e multinacionais torna o ambiente ainda mais hostil para negócios em estágio inicial . Startups menores, com menor capacidade de oferecer salários competitivos e benefícios robustos, perdem profissionais para gigantes consolidadas — ou para o mercado internacional, onde 73% dos entrevistados concordam que existem condições mais atrativas .

As consequências vão além da folha de pagamento. O principal efeito dessa lacuna de talentos, na percepção das próprias startups, é o atraso no crescimento dos negócios. Em um ecossistema onde velocidade é tudo, a falta de engenheiros significa:

– Produtos que demoram mais para sair do papel;

– Ciclos de P&D alongados, especialmente crítico para deep techs que já exigem, em média, cinco anos para começar a gerar receita ;

– Dificuldade de cumprir prazos com clientes e investidores;

– Sobrecarga dos fundadores, que acumulam funções técnicas e estratégicas.

Engenharia como espinha dorsal da inovação

Por que a falta de engenheiros deveria preocupar especialmente quem investe ou empreende em tecnologia? A resposta está na natureza da inovação que realmente transforma setores inteiros.

Deep techs — startups de base científica que atuam em áreas como biotecnologia, novos materiais, energia limpa, automação avançada e sensoriamento — são movidas por engenharia em sua essência . Um levantamento da consultoria Emerge Brasil mapeou 875 deep techs em atividade no país, atuando majoritariamente nas áreas de saúde humana (243 negócios) e agronegócio (202 negócios). São empresas como a Inspectral, que criou tecnologia para análise da qualidade da água via drones e satélites, ou a Symbiomics, que desenvolve bioinsumos a partir de microrganismos para a agricultura .

“Deep techs são fortemente baseadas em ciência e, muitas vezes, fundadas por pesquisadores”, explica Daniel Pimentel, diretor da Emerge Brasil. “Mas para que essa ciência vire produto, você precisa de engenheiros capazes de transformar descobertas de laboratório em soluções escaláveis, com viabilidade técnica, econômica e industrial”.

É nesse ponto que o gargalo se torna crítico. O mesmo estudo aponta que **70% das deep techs mapeadas ainda estão amadurecendo suas tecnologias**, enquanto apenas 30% avançaram para o estágio de ganho de escala e entrada no mercado . A dificuldade de encontrar engenheiros com a formação adequada para tocar esse amadurecimento é apontada como um dos principais entraves.

Por que os jovens estão fugindo da engenharia?

Para entender o gargalo, é preciso olhar para a formação de talentos. Pesquisa encomendada pelo CIEE ao Instituto Locomotiva com 1.150 estudantes do Ensino Médio revela que apenas 12% dos jovens têm interesse em cursar Engenharia — o equivalente a 2,3 milhões de potenciais estudantes em um país de 200 milhões.

Os motivos são variados, mas um se destaca: 22% dos entrevistados citam dificuldades com Matemática como principal razão para não escolher a área . A insegurança com exatas começa cedo: aos 14 anos, apenas 15% dos estudantes brasileiros têm nível adequado em Matemática para resolver uma equação de 1º grau.

Há também percepções equivocadas sobre a carreira. Oito em cada 10 estudantes acreditam que cursos de Engenharia são caros, como aponta a pesquisa, e 23% citam dificuldades financeiras como possível motivo para desistência . O medo de investir em uma formação longa e tecnicamente exigente, sem a garantia de retorno profissional, afasta jovens que poderiam ser os futuros CTOs e founders de startups de base tecnológica.

O papel das startups na atração de talentos

Apesar do cenário desafiador, há razões para otimismo — e elas passam justamente pelo ecossistema de inovação. A pesquisa do Google for Startups aponta que o mercado brasileiro ainda é altamente homogêneo e pouco diverso, com 43% dos profissionais de tecnologia concentrados apenas no estado de São Paulo . Isso significa que há enorme potencial de inclusão e descentralização — exatamente o tipo de disrupção que as startups sabem fazer bem.

Iniciativas como o Capacita+ e os Certificados Profissionais do Google já treinaram mais de 2,4 milhões de brasileiros em habilidades digitais, com foco em grupos sub-representados como mulheres, pessoas negras e comunidade LGBTQIAPN+ . Startups que investem em programas de capacitação interna, parcerias com escolas de engenharia e modelos de trabalho remoto podem acessar talentos onde as grandes corporações ainda não chegaram.

O futuro começa (e depende) agora

Para as startups que sobreviverem ao gargalo de talentos, o futuro promete ser movido a engenharia. Tendências como inteligência artificial aplicada ao projeto, gêmeos digitais, Internet das Coisas e engenharia sustentável já estão remodelando a forma como produtos são concebidos, testados e fabricados .

O engenheiro do futuro, segundo especialistas, não será apenas um técnico especializado, mas um profissional híbrido — que combina conhecimento profundo de ciência e matemática com habilidades de gestão, análise de dados e, cada vez mais, sustentabilidade. É justamente esse perfil multidisciplinar que as startups, com sua estrutura enxuta e cultura de aprendizado constante, estão mais preparadas para formar e reter.

“O empreendedorismo representa um caminho promissor para engenheiros que buscam estar na vanguarda da inovação e liderança tecnológica”, resume Isabella Holouka, especialista no tema. “Seja em grandes empresas ou liderando suas próprias startups, esses profissionais têm o potencial de moldar o futuro”.

A questão que fica para fundadores, investidores e formuladores de políticas públicas é: como acelerar a formação e a retenção desses talentos antes que o gargalo se torne uma barreira intransponível para a próxima geração de startups brasileiras? 

A resposta, ironicamente, pode vir da própria engenharia — aplicada agora à solução de um problema que ameaça justamente quem mais precisa de suas inovações.

Para decifrar as origens desse distanciamento e discutir estratégias urgentes para reverter a evasão e conectar os currículos acadêmicos às reais demandas do mercado moderno, a GZM TV conversou com dois engenheiros em posição de destaque e com experiência em gestão pública da inovação, Vahan Agopyan, Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, e Juliana Benício: ex-Secretária de Ciência, Inovação e Tecnologia do Município de Niteroi/RJ.

Eles acompanham de perto essa transformação profunda e refletem caminhos para mitigar esse deficit técnico num episódio especial da série especial GZM TV Engenharia no Brasil, que é apresentado pela dupla de engenheiros Marcelo Massarani e Dario Gramorelli. 

O programa está disponível nas plataformas Spotify e YouTube e também no link abaixo, confira:

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