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O produto morreu como centro da proposta de valor: a nova lógica da inovação industrial

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O produto morreu como centro da proposta de valor: a nova lógica da inovação industrial

* Por Vinícius Tavares Araújo

Por muito tempo, nos acostumamos a tratar inovação como sinônimo de novos produtos. Em diversos setores industriais, essa lógica ainda prevalece, sustentada por disputas centradas em desempenho técnico, eficiência e preço. Mas esse modelo começa, aos poucos, a perder força diante de um ambiente de negócios cada vez mais orientado por dados, serviços e experiência do cliente.

O que tenho observado é que a transformação digital, somada à pressão por práticas mais sustentáveis, vem forçando empresas a revisitar não apenas o que entregam ao mercado, mas principalmente como geram valor ao longo de toda a jornada do cliente. A inovação deixa de ser incremental e passa a assumir um caráter muito mais estrutural. Não se trata mais de melhorar o que já existe, mas de desenvolver novos modelos de negócio, criar serviços recorrentes e estruturar ecossistemas capazes de sustentar relações mais duradouras.

Uma das mudanças mais relevantes nesse processo é a transição de modelos baseados exclusivamente em produto para estratégias que combinam produto, serviço e inteligência de dados. Na prática, isso significa sair de uma competição por atributos técnicos e avançar para soluções que impactam diretamente o desempenho dos clientes, seja reduzindo custos, seja aumentando produtividade.

E essa transformação não acontece apenas em empresas nativamente digitais. Pelo contrário, tenho visto setores historicamente consolidados avançarem nessa direção de forma bastante consistente.

A indústria de lubrificantes é um exemplo interessante. Tradicionalmente baseada na venda de produtos físicos e em relações comerciais já estabelecidas, começa a incorporar novas frentes de inovação que vão além da formulação química combinando tecnologias avançadas com práticas sustentáveis. O uso de sensores para monitoramento de equipamentos, soluções voltadas à eficiência energética, o desenvolvimento de produtos mais sustentáveis e a oferta de serviços digitais que acompanham o desempenho operacional são sinais claros dessa mudança.

Mais do que iniciativas isoladas, o que está em curso é uma reconfiguração do papel dessas empresas. Elas passam a oferecer soluções integradas de gestão de desempenho industrial, combinando tecnologia, dados e serviços.

Na minha visão, esse movimento revela uma mudança mais profunda: o produto deixa de ser o centro da proposta de valor e passa a ser apenas parte de uma solução mais ampla.

Ao substituir relações transacionais por vínculos contínuos, as empresas passam a oferecer monitoramento, manutenção preditiva, suporte técnico e análise de dados como serviços permanentes. Isso não apenas cria novas fontes de receita, como também fortalece a fidelização e aumenta as barreiras competitivas, já que o valor percebido deixa de estar no produto isolado.

No fim do dia, a transformação em curso não é apenas tecnológica. Ela exige uma revisão real de mentalidade. Inovar, hoje, é questionar modelos estabelecidos e enxergar oportunidades onde antes só existiam transações.

As empresas que conseguirem fazer essa transição tendem a assumir um novo papel: deixam de ser fornecedoras e passam a atuar como parceiras estratégicas. E, em um ambiente cada vez mais competitivo e orientado por dados, essa talvez seja a diferença entre acompanhar o mercado ou liderá-lo.

*Vinícius Tavares Araújo é Consultor Sênior na TGT IS

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