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Eu moro na China desde 2010 e o que mudou não foi o preço
Quando eu cheguei aqui, em 2010, “Made in China” era um selo que constrangia quem carregava. Era sinônimo de cópia barata, e a discussão com qualquer empresário brasileiro terminava sempre no mesmo lugar: quanto custa, e dá pra confiar?
Quinze anos depois, eu recebo esse mesmo empresário no aeroporto de Guangzhou e a primeira pergunta dele já é outra. Ele não vem mais só comprar. Ele vem entender por que aqui as coisas ficam prontas antes.
E o melhor exemplo disso não é o carro elétrico. Essa discussão já envelheceu enquanto o Ocidente ainda estava tendo ela.
O número que ninguém no Brasil comenta
Em julho, o ministério que regula a indústria chinesa soltou um dado que passou batido lá fora: sete em cada dez carros de passeio novos vendidos na China este ano já saem de fábrica com assistência de condução, e um em cada três já sai com piloto de navegação, aquele que conduz sozinho em trecho de rodovia enquanto o motorista supervisiona.
Um em cada três. Não num carro de luxo. Na média do mercado.
Eu faço questão de ser preciso aqui, porque esse número costuma ser usado errado: isso não é carro autônomo. É assistência. Quem responde ainda é o motorista, e o próprio ministério separa as duas estatísticas justamente pra ninguém confundir. Mas é exatamente aí que mora a lição.
Enquanto o mundo debate se o carro autônomo é seguro, a China já embutiu o degrau anterior no carro que o cara comum compra pra ir trabalhar. Ela não esperou a tecnologia ficar pronta. Ela industrializou o que tinha e foi corrigindo no caminho.
O robotáxi existe, e não dá lucro
A parte mais visível dessa corrida são os robotáxis. Eles existem, rodam, cobram, e já não são piloto de laboratório: o serviço da Baidu passou de vinte milhões de corridas com o público e chegou a ter semanas com mais de trezentas mil viagens. Um concorrente listado em Nova York quase dobrou a frota em seis meses.
Só que eu preciso falar a parte que quase ninguém publica, porque é ela que dá a dimensão real: esse negócio ainda não dá lucro. Essa mesma empresa que multiplicou a receita de corrida por sete no último trimestre fechou o período com dezenas de milhões de dólares de prejuízo. E em algumas cidades a corrida sai por menos de um quinto do preço do táxi comum.
Ou seja, a dianteira chinesa em robotáxi hoje é financiada por investidor, não por resultado. Isso não é demérito, é fase. Mas quem me pergunta se deve importar robotáxi precisa ouvir isso antes de ouvir qualquer outra coisa.
O que realmente explica a velocidade
Aqui está o ponto que eu levo quinze anos tentando explicar pra quem chega, e que finalmente ganhou um exemplo perfeito este ano.
Numa noite de março, cerca de cem robotáxis pararam ao mesmo tempo em vias e viadutos de Wuhan por falha de sistema. Deu congestionamento, batida na traseira, passageiro preso dentro do carro por duas horas. Ninguém se feriu, mas foi um vexame público.
Duas semanas depois, três ministérios do governo central mandaram a indústria inteira se autoinspecionar e as licenças novas foram suspensas na prática.
E aqui vem o detalhe que muda tudo: durante a suspensão, as frotas continuaram crescendo. Em julho o licenciamento voltou.
É esse o mecanismo. A China libera rápido, cidade por cidade, com o produto ainda imperfeito. Quando dá problema, freia, corrige e volta a liberar. O Ocidente faz o contrário: exige a prova antes da escala. Só que a prova, nesse tipo de tecnologia, só aparece com escala.
Não é segredo de fábrica. Não é um chip mágico. É uma escolha de método, com um custo social embutido que eu não vou fingir que não existe: nesse modelo, o mercado é o laboratório.
E não saiu de graça. Um centro de estudos americano estima que a indústria de veículos de nova energia aqui recebeu algo em torno de duzentos e trinta bilhões de dólares em apoio estatal ao longo de catorze anos. É estimativa, e o próprio autor reconhece que o número diverge bastante da estatística oficial chinesa. Mesmo pela metade, explica por que essa corrida começou antes.
O que eu digo pro empresário brasileiro
Não é pra comprar carro autônomo. É outra coisa, e é mais útil.
O fornecedor chinês com quem você negocia amanhã opera dentro de um sistema que normaliza colocar no mercado o que ainda não está pronto, corrigir em público e seguir. Isso muda duas coisas no seu negócio.
A primeira é que a referência do que é item de série se desloca mais rápido do que o seu catálogo. Quando um terço dos carros novos de um país inteiro sai com piloto de navegação, a expectativa do consumidor muda. E ela atravessa a fronteira junto com o produto.
A segunda é mais concreta ainda: o fornecedor que te apresenta um produto este ano provavelmente não o tinha no ano passado, e vai revisá-lo no ano que vem. Comprar na China deixou de ser negociar preço e virou acompanhar versão. Quem descobre isso tarde paga caro, porque recebe no contêiner um produto que já saiu de linha.
É por isso que o fluxo mudou. Faz uns dois anos que eu vejo brasileiro atravessando o mundo não pra fechar pedido, mas pra entender por que aqui o intervalo entre a ideia e a prateleira é tão curto.
A resposta não está numa fábrica específica. Está no fato de que um país inteiro decidiu que errar em público, rápido e barato, sai menos caro do que acertar sozinho, devagar e tarde.
Eu não estou dizendo que é o modelo certo. Estou dizendo que é o modelo que está ganhando, e que fingir que ele não existe é a forma mais cara de perder.
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