Pular para o conteúdo principal

Exponential Summit discute o que separa a IA que gera valor da que apenas queima caixa

Startupi

Exponential Summit discute o que separa a IA que gera valor da que apenas queima caixa

O mercado corporativo passou os últimos anos colecionando pilotos de inteligência artificial que pareciam revolucionários no PowerPoint, mas entregavam pouco na linha de fundo. Para Bruno Machado, vice-presidente de Tecnologias Educacionais e Mindset Digital da Ânima Educação, essa era está chegando ao fim. Em entrevista à GZM, o executivo, que fará a palestra “Do hype ao resultado: como gerar valor e oportunidades reais no próximo ciclo de IA?” no Exponential Summit, dia 06/10, defende que a diferença entre empresas que efetivamente geram valor e as que apenas queimam caixa para surfar a onda da IA está em conectar tecnologia a problemas concretos, rever processos e medir o impacto gerado. 

Na conversa, Machado detalha como a Ânima mede o ROI de iniciativas de IA, os pilares pedagógicos que jamais devem ser delegados a algoritmos, os limites da personalização em escala e a verdade incômoda que muitas organizações ainda relutam em admitir sobre o futuro da inteligência artificial nos negócios e na educação. Confira:

GZM: O mercado corporativo passou os últimos anos colecionando pilotos de IA que pareciam revolucionários no PowerPoint, mas entregavam pouco na linha de fundo. No próximo ciclo, o que separa uma empresa que está efetivamente gerando valor de outra que está apenas queimando caixa para surfar a onda da inteligência artificial?

Bruno Machado: A diferença está em conectar tecnologia a problemas reais do negócio e medir o impacto gerado. A inteligência artificial já deixou de ser uma agenda exploratória para se tornar uma alavanca estratégica, mas nem toda aplicação de IA gera valor. Ter muitos pilotos ou um grande volume de uso não demonstra, por si só, que a empresa está obtendo retorno. É preciso saber o que melhorou em relação ao ponto de partida e quanto custou produzir essa melhoria.

Na Ânima, partimos das necessidades do estudante, dos educadores e da operação para definir onde a tecnologia pode transformar experiências, processos e modelos de negócio. O diferencial não é simplesmente ter acesso à IA, mas incorporá-la à operação e convertê-la em resultado. Isso exige também rever a forma de trabalhar. Aplicar IA sobre um processo que já é lento ou fragmentado pode preservar os mesmos gargalos, agora com uma ferramenta adicional.

GZM: A Ânima opera em um setor tradicionalmente avesso a rupturas velozes. Quando falamos de IA, o maior gargalo para gerar resultados reais é a tecnologia em si ou a resistência cultural de professores e gestores em abandonar métodos seculares?

Bruno Machado: O desafio não está apenas na tecnologia, mas na capacidade de incorporá-la ao modelo educacional. Na educação, uma solução só gera valor quando faz sentido para quem ensina e para quem aprende. Por isso, eu teria cuidado em tratar esse desafio como resistência de professores e gestores. Quem conhece a prática educacional precisa participar da construção da mudança, inclusive para identificar onde a tecnologia ajuda e onde exige mais cuidado.

Na Ânima, partimos da premissa de que a IA deve ampliar a capacidade humana, e não substituir o exercício de pensar. Quando a tecnologia reduz tarefas operacionais e permite que educadores e equipes dediquem mais tempo ao que exige julgamento, interação e conhecimento, ela passa a ser uma aliada. Na relação entre professor e estudante, esse ganho de tempo tem um valor importante: abre espaço para acompanhamento, diálogo e atenção às dificuldades de aprendizagem.

Por isso, entendo que a transformação digital também é mudança cultural. Não basta disponibilizar uma ferramenta, é preciso desenvolver pessoas, experimentar e demonstrar valor na prática. A liderança tem a responsabilidade de criar essas condições, ouvir quem utiliza a solução e ajustar o que não funciona. A adesão se constrói quando o benefício aparece no cotidiano.

GZM: Muitos líderes caíram na armadilha de comprar ferramentas caras de IA por FOMO (medo de ficar de fora). Como a Ânima mede o ROI (Retorno sobre o Investimento) de uma iniciativa de IA para garantir que ela impacta o aprendizado do aluno e não apenas vira mais um “brinquedo tecnológico” no ecossistema?

Bruno Machado: Para nós, retorno não é apenas adoção ou volume de uso. É impacto. Uma iniciativa de IA precisa estar vinculada a um objetivo concreto do negócio ou da experiência educacional e ter indicadores que permitam acompanhar esse impacto. Isso exige definir o ponto de partida e comparar o benefício obtido com o custo de implantação e operação. Os indicadores precisam corresponder ao problema que queremos resolver: tempo de resposta e resolução de demandas no atendimento, tempo dedicado a tarefas operacionais no apoio ao docente e evidências de aprendizagem nas aplicações pedagógicas.

A IA.RA é um exemplo. Ao integrar bases institucionais de conhecimento, ela oferece respostas mais rápidas e contextualizadas para candidatos e estudantes e amplia a capacidade das equipes de atendimento. Também aplicamos IA em personalização de campanhas e no apoio a docentes e equipes acadêmicas. A lógica é simples: se a tecnologia não melhora uma experiência, aumenta nossa capacidade de execução ou gera impacto pedagógico, precisamos questionar seu valor.

GZM: Existe uma linha tênue entre usar IA para automatizar processos educacionais e desumanizar a experiência de ensino. Na sua visão, quais pilares pedagógicos são inegociáveis e jamais devem ser delegados a um algoritmo, por mais avançado que ele seja?

Bruno Machado: A tecnologia deve potencializar a aprendizagem, não substituir a interação humana. Na Ânima, a relação entre professor e estudante continua central. E, em um cenário de abundância de informação, pensamento crítico, criatividade, empatia, escuta, adaptabilidade e capacidade de fazer boas perguntas se tornam ainda mais relevantes.

Quanto mais tecnologia temos disponível, maior é o valor daquilo que exige julgamento, troca, experimentação e desenvolvimento humano. Julgamento, relações humanas e decisões que exigem contexto, ética e compreensão do indivíduo não podem ser reduzidos a uma decisão algorítmica.  A IA pode oferecer informações e subsídios, mas a responsabilidade pelas escolhas pedagógicas e pela avaliação do desenvolvimento do estudante precisa permanecer humana.

GZM: Prometer hiperpersonalização em escala na educação é o Santo Graal do setor. No entanto, muitas instituições entregam apenas personalização rasa baseada em regras antigas. Como a IA generativa está mudando esse jogo na prática na Ânima e onde está o limite dessa personalização?

Bruno Machado: Na Ânima, isso já aparece em diferentes pontos da jornada. Na atração, usamos IA para adaptar comunicações de acordo com o perfil e o momento de cada candidato. Na jornada acadêmica, a IA.RA utiliza nossas bases institucionais para oferecer informações mais contextualizadas aos estudantes.

Mas personalização não significa substituir relações por tecnologia. O objetivo é usar dados e IA para tornar a experiência mais relevante e aproximar cada estudante daquilo que ele precisa para avançar. A ambição é construir uma educação cada vez mais adaptativa e escalável, mantendo pessoas e relações no centro.

A IA generativa amplia essa capacidade porque permite trabalhar com linguagem e contexto de forma muito mais dinâmica, tornando a interação mais responsiva às necessidades de cada pessoa.

O limite está em preservar a autonomia do estudante e os objetivos pedagógicos. Personalizar não pode significar restringir alguém ao que um sistema presume sobre seu perfil. A educação também precisa apresentar perspectivas novas e propor desafios. A tecnologia deve ampliar as possibilidades de aprendizagem, com espaço para o estudante e o professor questionarem suas recomendações.

GZM: Se a IA já consegue passar em exames complexos e escrever códigos, qual é o valor real de uma formação superior tradicional? Como a Ânima está pivotando seus próprios currículos e a mentalidade dos educadores para um cenário onde a única certeza é a obsolescência rápida do conhecimento técnico?

Bruno Machado: A IA não reduz o valor da formação superior. Ela muda a natureza das competências que precisam ser desenvolvidas. O conhecimento técnico continua fundamental, mas precisa estar acompanhado de pensamento crítico, capacidade de resolver problemas, trabalhar com pessoas e aprender continuamente.

Isso também nos leva a repensar como ensinamos e avaliamos. O professor ganha ainda mais relevância como mentor, ajudando o estudante a interpretar informações, fazer conexões, desenvolver autonomia e aplicar conhecimento.

Não queremos formar profissionais que concorram com a IA. Queremos formar pessoas capazes de trabalhar com ela, questioná-la e tomar boas decisões a partir dela. O valor da universidade está também nas experiências práticas, na convivência e no contato com perspectivas diferentes, que ajudam a desenvolver julgamento e responsabilidade para atuar em um mundo em transformação.

GZM: Olhando para os próximos 3 a 5 anos, qual é a grande ilusão sobre IA em que as empresas ainda estão acreditando e qual é a verdade incômoda que ninguém quer admitir sobre o futuro da inteligência artificial aplicada aos negócios e à educação?

Bruno Machado: A grande ilusão é acreditar que o avanço da IA será definido pela ferramenta mais poderosa. Na prática, a vantagem estará na capacidade de uma organização incorporá-la ao seu modelo de operação e às suas decisões.

A verdade incômoda é que isso exige rever processos, prioridades de investimento e formas de trabalhar que muitas empresas ainda tratam como definitivos. É possível adotar ferramentas novas e continuar operando com os mesmos gargalos. A tecnologia avança rapidamente, mas transformar esse avanço em resultado exige escolhas e mudanças que nem sempre são confortáveis.

Nos próximos anos, entendo que a IA estará cada vez mais acessível. O diferencial estará em selecionar onde ela realmente faz diferença, integrá-la aos processos, preparar as pessoas e escalar o que funciona. Na educação, isso significa algo ainda maior: usar tecnologia para ampliar a capacidade de cada estudante e educador, sem transformar a educação em uma experiência desumanizada.

A próxima etapa da transformação não será sobre ter mais tecnologia, mas sobre saber usá-la melhor para gerar valor e transformar experiências. Para nós, tecnologia não é um fim, mas uma capacidade para ampliar o impacto da educação na vida das pessoas. Nossa ambição tecnológica só faz sentido se melhorar a experiência de quem aprende, de quem ensina e de quem atua na organização.

O post Exponential Summit discute o que separa a IA que gera valor da que apenas queima caixa aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Startupi

O post Exponential Summit discute o que separa a IA que gera valor da que apenas queima caixa apareceu primeiro em Startupi.



Continue Lendo: Startupi / https://startupi.com.br/do-hype-ao-resultado-ia-gera-valor-real/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inteligência Artificial e Democracia: quem está controlando a opinião pública?

Startupi Inteligência Artificial e Democracia: quem está controlando a opinião pública? *Por Douglas Torres A relação entre inteligência artificial e democracia nunca foi tão evidente quanto agora. Nos últimos anos, testemunhamos a ascensão de ferramentas generativas com capacidade de criar textos, imagens e vídeos indistinguíveis do real, moldando percepções políticas com uma velocidade que nenhum outro instrumento tecnológico conseguiu alcançar. O problema é que tudo isso acontece sem transparência — e, em muitos casos, sem que o próprio eleitor perceba que está sendo influenciado. Quando afirmo que não teremos eleições sem IA, não estou fazendo uma previsão futurista. Estou descrevendo o presente. Hoje, campanhas políticas utilizam modelos generativos para segmentar mensagens, testar narrativas, ampliar presença digital e responder...

Crachá de silício

Startupi Crachá de silício O crachá corporativo agora também é digital, e ele não pertence a um humano. A notícia vem da FCamara , uma consultoria que atua também no desenvolvimento de softwares, que anunciou que já integrou 400 trabalhadores “sintéticos” (agentes de IA) aos seus 1.800 profissionais. Longe de ser um mero piloto de automação, o movimento da empresa quer atacar o faturamento e o lucro, transformando a tecnologia em uma ferramenta geradora de receita direta em frentes que vão do desenvolvimento técnico ao RH. Mas a virada de chave exige uma nova orquestração de agentes. Não se trata de assinar licenças de software, mas de desenhar uma governança onde humanos lideram e auditam as entregas para blindar a operação contra alucinações e custos de infraestrutura. A divisão do trabalho é clara: a IA acelera o volume e a repetição, enquanto o humano assume a estratégia. Culturalmente, o desafio migrou da gestão do medo para a cultura da coprodução. Assim, os cola...

O papel da liderança feminina na transformação digital

Startupi O papel da liderança feminina na transformação digital *Por Viviane Campos Vivemos uma era em que a transformação digital deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma questão de sobrevivência. Organizações de todos os setores estão repensando seus modelos de negócio, suas operações e, principalmente, a forma como se conectam com clientes e colaboradores. No entanto, há um aspecto que muitas vezes passa despercebido nesse processo: a transformação digital não é apenas tecnológica, ela é, acima de tudo, humana. É justamente nesse ponto que surge um novo vetor de mudança: a diversidade na liderança. A tecnologia evolui mais rapidamente quando impulsionada por diferentes perspectivas. A presença feminina, com sua capacidade de integrar empatia, colaboração e pensamento analítico, tem se mostrado essencial na construção de soluções mais inclusiv...