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Quem vai ensinar o Brasil de amanhã?

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Quem vai ensinar o Brasil de amanhã?

A qualidade da educação depende de escolhas que se materializam no cotidiano das escolas: nos recursos disponíveis, na formação de quem ensina e nas condições oferecidas para que esse trabalho seja realizado. Nesse sentido, o relatório Education at a Glance 2026, recém-lançado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), convida o Brasil a enfrentar uma questão essencial: como assegurar uma educação melhor se a área encontra dificuldades para atrair novos profissionais?

Um dado apresentado no documento é o ponto de partida para explicar o desinteresse pela docência. Segundo o relatório, em 2023, o gasto governamental por estudante, da educação primária à superior, foi de US$ 4.133 no Brasil e de US$ 13.601 na média da OCDE. Entretanto, o gasto público representou 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, acima dos 4% registrados, em média, na OCDE.

Esses indicadores precisam ser lidos conjuntamente. A participação no PIB, isoladamente, não revela os recursos efetivamente disponíveis para cada estudante. Tampouco o gasto por aluno dispensa a discussão sobre a qualidade da sua aplicação. O desafio brasileiro exige ampliar a capacidade de financiamento e assegurar que os recursos se traduzam em aprendizagem, infraestrutura adequada e condições de trabalho compatíveis com a responsabilidade atribuída às escolas.

A formação docente é outra dimensão desse compromisso. De acordo com o Education at a Glance, em 2024/2025, 9% dos professores das instituições públicas de educação primária e secundária no Brasil não atendiam aos requisitos nacionais de qualificação. E, nesse ponto, o debate alcança as instituições de educação superior e os cursos de licenciatura. 

Segundo o Censo da Educação Superior, do Inep/MEC, em 2024 essas graduações receberam 16,2% dos ingressantes, a menor participação entre os três graus acadêmicos (bacharelado, licenciatura e tecnológico). Além disso, o número de novos alunos nas licenciaturas diminuiu 2,8% em relação a 2023.

Atrair estudantes para esses cursos demanda políticas capazes de tornar a formação acessível e a profissão desejável. Lançado em janeiro de 2025, o programa Mais Professores para o Brasil reúne iniciativas voltadas à atração, à formação e à valorização dos docentes. Uma de suas ações, o Pé-de-Meia Licenciaturas, oferece apoio financeiro a estudantes elegíveis de licenciaturas presenciais. O benefício compreende R$ 700 mensais disponíveis para saque e R$ 350 destinados a uma poupança, cujo acesso está condicionado à conclusão do curso e ao ingresso na rede pública de educação básica.

A iniciativa merece reconhecimento por enfrentar uma barreira concreta: a necessidade de recursos para sustentar a trajetória universitária. O incentivo financeiro pode abrir a porta da graduação para que os estudantes queiram atravessá-la e permanecer na docência, porém, é preciso olhar para a realidade que os espera. Uma política de atração perde força quando a perspectiva profissional é marcada por remuneração pouco satisfatória, sobrecarga e dificuldades para conduzir o trabalho pedagógico.

A pesquisa Talis 2024, também da OCDE, ajuda a dimensionar essa questão. Entre os professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental, apenas 22% declararam satisfação com o salário. Manter a disciplina em sala foi apontado como fonte de estresse por 64% dos docentes, enquanto o excesso de provas e trabalhos para corrigir foi mencionado por 60%.

Além disso, turmas numerosas ampliam a complexidade do exercício docente: acompanhar dificuldades individuais, preparar atividades e oferecer devolutivas exige tempo. Planejar aulas, corrigir avaliações e estudar também são tarefas docentes e precisam ser reconhecidas na organização da jornada e da remuneração. Portanto, a discussão sobre a escassez de professores e a formação de profissionais qualificados deve considerar todo esse cenário multifatorial que resulta no desinteresse dos brasileiros pela área.

Assim como os desafios são diversos, equacionar o problema também envolve um esforço a várias mãos. Às instituições de educação superior, cabe assegurar uma formação sólida, articulada à prática escolar, com estágios supervisionados e aproximação efetiva com as redes de ensino. Aos gestores públicos, cabe conectar os incentivos ao ingresso com políticas de carreira, formação continuada e condições adequadas de exercício profissional. Essas responsabilidades precisam convergir: preparar bem um professor e oferecer condições para que ele se forme e chegue às salas de aula são compromissos inseparáveis.

O Brasil precisa transformar o interesse pela licenciatura em uma escolha de futuro que possa ser sustentada ao longo da vida profissional. E isso está totalmente vinculado ao estabelecimento de um compromisso duradouro com financiamento, formação e valorização da carreira docente. Para que mais jovens escolham ensinar, é preciso que, além do desejo de contribuir para a transformação de outras pessoas, encontrem na docência a perspectiva de uma vida digna para si e suas famílias.

O post Quem vai ensinar o Brasil de amanhã? aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Janguiê Diniz

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