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Sua empresa sabe quantas identidades existem no seu ambiente digital?
Há uma pergunta que poucas equipes de segurança conseguem responder com precisão: quantas identidades estão autorizadas a acessar os sistemas da empresa neste exato momento? Não quantos funcionários existem, nem quantos usuários estão cadastrados no diretório corporativo, mas quantas identidades humanas e não humanas possuem algum tipo de acesso ao ambiente digital. A resposta pode incluir aplicações SaaS, APIs, integrações entre sistemas, contas de serviço, agentes automatizados, máquinas e processos que executam tarefas sem qualquer intervenção humana.
Essa dificuldade ganhou outra dimensão com a expansão da inteligência artificial e da automação. Segundo o CIO Report 2026, mostra que 60% dos líderes brasileiros estão extremamente confiantes em seus roadmaps de IA para os próximos dois a três anos. Quando a pergunta passa para a capacidade de escalar essas iniciativas, o percentual cai para 42%. O dado ajuda a revelar uma questão que vai além da própria IA: existe uma distância entre aquilo que as organizações planejam colocar em operação e a capacidade de administrar toda a estrutura que surge a partir dessas decisões.
Cada nova aplicação conectada ao ambiente corporativo pode criar uma nova identidade, uma nova credencial, uma nova permissão ou um novo caminho de comunicação entre sistemas. Uma API desenvolvida para integrar duas plataformas pode continuar ativa depois que o projeto que a originou deixou de ser prioridade. Uma conta de serviço pode permanecer com privilégios elevados porque ninguém sabe exatamente qual processo depende dela. Um software contratado por uma área de negócio pode estar conectado a informações corporativas sem que a equipe de segurança tenha participado da implementação. Da mesma forma, um agente de IA pode receber autorização para consultar dados, acionar ferramentas e executar tarefas em nome de uma pessoa ou de um sistema.
Outro fator que tem ganhado relevância entre as discussões de especialistas do setor e que envolve outras áreas dentro das organizações como os departamentos de RH é a gestão das credenciais de acesso. Alguns questionamentos como: Quando um colaborador deixa a empresa, existe um processo conhecido para revogar seus acessos? Quando uma aplicação é descontinuada, quem garante que suas credenciais também foram eliminadas? Quando uma integração muda de função, quem revisa as permissões que ela acumulou? E quanto uma identidade não humana começa a operar com comportamentos suspeitos, qual área acompanha o que está acontecendo ou o que ela está tentando acessar? Esses processos e rotinas de gestão e controle das informações e dados dos colaboradores envolvem diretamente as diretrizes da governança corporativa, se tornando hoje uma das maiores defesas de uma empresa contra invasões e vazamentos.
Essa reflexão precisa ser feita. Segurança corporativa ainda é frequentemente pensada a partir de pessoas, dispositivos e sistemas conhecidos, só que a infraestrutura digital atual não respeita mais essa divisão de maneira tão organizada. O ambiente é composto por relações entre serviços, aplicações e identidades que podem ser criadas, alteradas e encerradas em velocidades que os processos tradicionais de inventário não conseguem mais acompanhar. É justamente nesse ponto que quero chegar: Surge uma das questões mais difíceis da segurança contemporânea. É justamente nesse ponto que quero chegar: como proteger aquilo que a organização não sabe que possui?
O que não está no inventário também é um risco
A resposta começa pelo inventário, não por um levantamento estático feito uma vez por ano, e sim por uma visão contínua das identidades existentes, dos acessos concedidos, das relações entre sistemas e das atividades realizadas por cada entidade. Para isso, é necessário entender o contexto de cada acesso: quem ou o que está acessando, qual recurso está sendo utilizado, por qual motivo, com quais privilégios e se aquele nível de acesso ainda faz sentido.
Essa mudança de perspectiva também altera a conversa sobre privilégio mínimo. Cada identidade precisa ter uma função claramente definida e permissões compatíveis com ela, com revisões que acompanhem as mudanças no ambiente. Uma integração criada para consultar determinado banco de dados, por exemplo, não deveria continuar carregando acessos amplos depois que sua finalidade mudou ou que novos recursos foram incorporados à estrutura.
O desafio aumenta quando a própria velocidade de transformação tecnológica passa a produzir identidades em escala. A expansão de SaaS, arquiteturas multicloud, APIs, automações e agentes de IA faz com que a superfície de ataque deixe de ser algo que pode ser desenhado facilmente em um diagrama. Ela se comporta como um ecossistema vivo, em constante mudança, no qual novos pontos de acesso podem surgir fora dos ciclos tradicionais de segurança e governança.
A discussão sobre identidade não humana precisa sair do departamento de infraestrutura e ganhar espaço na estratégia de segurança. Cada máquina, aplicação, API ou agente que recebe autorização para agir dentro de um ambiente corporativo passa a representar uma responsabilidade. Não existe automação neutra quando ela possui credenciais e capacidade de executar ações.
O CIO Report 2026 ajuda a colocar esse debate em perspectiva. O estudo global aponta que 62% dos CIOs afirmam ter feito concessões em governança por falta de conhecimento e 76% consideram a IA sem controle uma preocupação séria. No Brasil, a diferença entre confiança no planejamento e confiança na capacidade de escalar reforça uma questão que merece atenção: crescer tecnologicamente exige conhecer também as estruturas que esse crescimento cria.
Talvez a próxima fronteira da segurança corporativa não esteja em descobrir uma nova ameaça, e sim em enxergar melhor o próprio ambiente. Saber quais identidades existem, quais continuam ativas, quais possuem privilégios e quais estão operando sem uma finalidade claramente definida é uma condição básica para tomar decisões de segurança com alguma precisão.
Em um ambiente no qual sistemas já conseguem criar conexões, executar tarefas e tomar determinadas ações de forma automatizada, não saber que uma identidade existe significa também não saber que ela pode estar autorizada a fazer alguma coisa.
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